O passarinho me contou

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Photo by John Bakator on Unsplash

Em certa aula, no meio do semestre, aconteceu algo curiosamente trivial. Ao fundo do burburinho incessante de toda a discussão, havia um pássaro. Atrás da parede. Atrás do professor. Em algum lugar. Ouvia o seu canto diário, o seu sinal de vida. Não lembro se fazia sol. O som que atravessava a alvenaria preenchia a minha mente de tal forma que a luz perdia a sua importância.

Há poucos dias, o pássaro novamente apareceu. De madrugada, ele anunciava o imprescindível romper do amanhecer. Eu, insone. Ele, desperto. O seu canto me intrigava. Já não adiantava pensar naquela noite de sono. Quando a luz chegasse, seria tarde demais. A insônia venceria. O dia não tardaria nem um segundo a mais. A vida não pararia por causa da minha recusa em dormir. Mas, ela também não desistiria de mim.

Agora há pouco, a música de fundo coloria a tarde azul. O pássaro cantava suavemente, como se soubesse que, pela primeira vez, atrás da parede, eu o reconhecia. Entendia o que seu canto me dizia. O que ele me contava naquele outro dia. Hoje é o dia do descanso. Aqui dentro vale mais do que há lá fora. Está tudo pronto. Não existe inquietude, o sustento já vem.

Todas as necessidades são supridas quando se conhece Aquele a quem busca.

“Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”. Mateus 6.23

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De texto em texto, chego a esse texto

writingHá tanto tempo fiquei longe daqui que nem lembro mais o porquê. Distante, olhando pela janela, não era necessário me expor ao movimento. No caso, o movimento das palavras que fluem no feed, ou até das notificações diárias que, por mim, até poderiam ser mais esparsas.

É engraçado pensar que em algum momento já fui mais participante nelas. Mais precisamente, tentava ser parte delas pelo menos três vezes por semana. E era bom. Era legal. Ter um blog para falar de livros, e escrever sobre as pecinhas que iam se ligando no quebra cabeças da minha mente me agradava, me satisfazia. Não tinha motivo. A intensidade e a espontaneidade da adolescência davam conta do recado. Preenchiam a tela em branco e me levavam a um hobbie que me influenciaria de uma forma bem diferente do que eu imaginava.

Posso ver o quanto isso foi bom. Repito as palavras de tantas pessoas mais velhas que insistem em alertar: “eu era feliz e não sabia”. Realmente, não tinha ideia. Mas não vou gastar as próximas palavras em uma reflexão sobre como a sabedoria da maturidade nos faz enxergar aquilo que não entendíamos no passado. Vou deixar a Letícia mais jovem levar pelo menos parte do crédito dessa vez.

Na época em que escrever 200 palavras para mim era quase um suplício, eu tinha uma vantagem. Cada palavra escrita era uma fantasia, um assombro, uma realidade. Elas eram o que quisessem ser. Depois de publicadas, corriam livres. Mal se vinculavam a mim. Embora eu quisesse ser dona delas, não precisava. E elas não precisavam de mim.

Digo isso porque sei que hoje isso não funcionaria da mesma forma. Se eu publico algum texto, ele é meu. Ele corre comigo. Eu me prendo a ele. Isso fica ainda mais grave a partir do momento em que sou uma pessoa que, em pelo menos duas áreas um tanto diferentes da vida, dedica-se a escrever. A vida adulta prende as suas garras e segura aquilo que antes trazia um vislumbre de liberdade. Agora, a responsabilidade anda de mãos dadas com o significado. “Isso pode ser importante pra sua vida profissional algum dia, quem sabe. Não seja tola.”, ela me diz.

E me questiono se realmente precisa ser assim. Pelo menos em seu aspecto mais emocional, caso o mundo concreto não tenha redenção. Aquela intensidade e espontaneidade ainda podem reinar em algum lugar além de um caderno de anotações secreto, ou um rascunho nunca inacabado. Elas podem ser justamente o que liberta das garras. Aquilo que cria um novo significado para um dia de trabalho, que faz a responsabilidade pensar em quem ela realmente é.

Parece coisa de doido. Mas não é uma ruptura tão grande assim. O que proponho não é nada mais que uma atitude de coragem. Nos momentos em que a vida parece óbvia demais, sempre podemos fazer algo novo. Ou melhor ainda: trazer à tona aquilo que amávamos fazer e deixamos de lado. Se crescemos a partir de quem éramos no passado, lá ainda pode existir alguma coisa para aprender – e, quem sabe, surpreender.

O Susto

Um dos colegas de trabalho de Carlos tinha um hábito muito estranho. Quando menos se esperava, lá estava ele atrás de alguma porta, pronto para assustar a primeira pessoa que passasse.

Todo mundo se perguntava se era alguma coisa de infância ou algum trauma. Mas parecia mesmo um hobbie. O moço, definitivamente, parecia satisfeito com aquilo que fazia, apesar de não perceber a impressão que causava em seus colegas.

– Totalmente anormal – disse uma secretária do escritório, certa vez – Uma vez li numa revista que é assim que os psicopatas começam a demonstrar seu comportamento.

Não se sabe da credibilidade da fonte, mas, de fato, aquele comportamento era um pouco perturbador.

Numa terça feira à tarde, ele se encontrava atrás da porta novamente, quando Carlos estava prestes a passar.

– Bu! – exlamou.

– AH, oi… Você novamente. Tudo bem?

– Oi, Carlos! Não sabia que era você. Tudo ótimo e contigo?

– Ótimo, porém um tanto surpreso, por assim dizer.

– Por quê? Alguma novidade?

– Nada muito relevante ou fora do comum. Coração um pouco acelerado ultimamente, acho que é de família. E todo esse negócio do dólar subindo tão rápido. Acho que este ano não conseguirei fazer aquela viagem nas férias.

– Pois é, quando a vida te assusta você dá um grito.