Cinco segundos

Enfim, a tela clareou e começou a apresentar os momentos mais impactantes (ou não) do ano. Ainda era novembro, mas não se esperava que nada de especial acontecesse nas últimas semanas que possuíam. As atividades já estavam encerradas, eram férias para aqueles que não teriam que passar pela recuperação. Cada aluno, sentado em uma poltrona confortável que dispunha de uma tela moldada a uma distância confortável do rosto, assistia os momentos especias do ano que logo acabaria. Esse era um dos eventos que o colégio oferecia aos alunos ao final do ano letivo.

Havia câmeras por todo lado no recinto que captavam cada movimento dos ingênuos alunos. Invasão de privacidade era um assunto que nem passava por suas cabecinhas tolas, afinal, tudo o que queriam era aparecer nos clipes de final de ano. Isso significava que eram dignos de atenção, possuíam feitos reconhecíveis (bons ou ruins), eram populares.

A vinheta de abertura, acompanhada da música que esperavam loucamente, levou os alunos à loucura. Finalmente, os momentos inesquecíveis do ano rolaram na frente de rostos obcecados por cinco segundos de fama. Aquele primeiro dia de aula em que muitos se conheceram, a apresentação do grupo de teatro, a palestra com um tal doutor, a descoberta de quem havia escrito bobagens nas lousas das salas do Ensino Fundamental, entre outros fatos, sempre garantindo que os alunos provenientes de famílias influentes aparecessem nos momentos mais ilustres, encerraram o primeiro lote de clipes.

Então, chegou o momento mais esperado de todos. Os videos passaram a ser mais polêmicos, revelando segredos e momentos privados da vida dos alunos. Todos sabiam que estavam expostos às câmeras, mas não imaginavam que seus momentos de fofoca e discórdia seriam revelados para todos os alunos da escola. Clipes de alunos contando segredos interessantíssimos, chorando em algum canto sozinhos pelos motivos mais bobos possíveis era o que mais podia se ver naquele momento. Muito foi descoberto e os envolvidos passaram a plantar o ódio entre si. Mas não pela escola, órgão que permitia a disponibilidade dos videos. Os outros, adoravam a intriga. Era como se estivessem numa novela.

Em seguida, uma mensagem do diretor da escola sobre como aquele lugar era o ideal para quem queria um brilhante futuro, além dos agradecimentos finais e muita puxação de saco para que os alunos (principalmente os que sofreram retaliações) retornassem ao colégio no próximo ano.

Pode-se ouvir a música que acompanha a vinheta novamente, indicando que a sessão de comédias e tragédias chegava ao fim. O público aplaudia empolgadamente o fim do show. Não importava mais o que tinha aparecido nas telas. Boa parte da multidão teve pelo menos cinco segundos de fama. Ao se levantarem, comentavam sobre o que tinham visto como se fosse o mais banal dos programas de televisão, e como aguardavam ansiosamente pelos clipes do próximo ano. Todos pareciam felizes.

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