Maravilha das maravilhas

Dizia a lenda que o Queijo Sagrado apareceria inusitadamente à vida daqueles dignos de o receber.  Infelizmente, poucos acreditavam no Queijo Sagrado, talvez devido à incredulidade  que se espalhava como a gripe, ou ao fato de que as pessoas estavam frustradas pelo Queijo nunca ter aparecido a elas, então, para não admitir que fossem indignas, simplesmente diziam que não acreditavam.

Obviamente, a lenda não se referia apenas ao aparecimento do Queijo. Havia regras sobre como os indivíduos dignos deveriam se comportar quando o avistassem e o que fazer com ele, como, por exemplo, o “Ritual de Ingestão do Queijo”.  No entanto, a maioria das pessoas não lia atentamente essa parte da lenda quando o livro que a relatava, “O Queijo Sagrado”, era recomendado pelas escolas durante o Ensino Médio. Tanto que, muitas instituições educacionais já substituíam o livro original por releituras ou apenas entregavam alguns fragmentos do livro para seus alunos.

Nesse cenário mundial incrédulo, uma menina despertou um sincero interesse pela lenda do Queijo Sagrado. Astrid, como se chamava, levava o assunto muito a sério e sempre estava por dentro de novos documentários e palestras sobre o assunto. Todos a chamavam de lunática por causa de seu interesse em algo que era considerado pela maioria, apenas uma lenda. A única pessoa que a apoiava, era sua professora de história, que também se interessava pela lenda, tanto que seu trabalho de conclusão de curso na faculdade a tinha como tema.

Astrid tinha apenas um amigo, cujo nome era Ryldo. Ele não acreditava no Queijo e achava sua amiga idiota por insistir tanto em algo que não existia. Eles brigavam muito devido a esse assunto, mas sempre acabavam esquecendo as brigas porque tinham muitos interesses em comum, como esculturas em palito de dente e Medicina Forense.

Os dois cursavam o segundo ano do Ensino Médio quando a “Maravilha das Maravilhas” apareceu a eles e à professora. Era mês de junho, época de Festa Junina e estava tremendamente frio. Tão frio que seus maxilares e mandíbula batiam freneticamente. Ficaram com medo de terem futuros problemas com bruxismo, se apenas este ato fosse capaz de acarretá-lo.

Festas Juninas não faziam sentido para Astrid, mas como normalmente tinham bastante comida, ela foi sem reclamar. Ela combinou de encontrar Ryldo às quatro horas da tarde em frente ao condomínio em que ele morava para que fossem juntos.  Isso a estressou grandemente, pois Ryldo demorava muito para se arrumar e era muito preguiçoso. Quando ela chegou e telefonou, avisando que havia chegado, ele estava dormindo, não tinha escovado os dentes e planejado o que ia vestir. Felizmente, ele se apressou e conseguiu se arrumar em quinze minutos. Se ele demorasse mais que isso, ele provavelmente não teria sobrevivido para presenciar o Queijo.

O caminho até a escola era curto, tanto que não houve muito tempo para conversar até a chegada. Entrando na escola, um prédio de oito andares com uma área aberta, podia-se ver um local enfeitado com bandeirinhas, trabalhos relacionados ao tema, entre outros. Os organizadores haviam se esforçado muito naquele ano. Era necessário reconhecer isso. De qualquer forma, os amigos não pararam para pensar nisso e foram comer o maior número de cachorros-quentes possível.

Sim, depois de uma hora, eles estavam quase vomitando. Mas isso não chegou a acontecer. Eles avistaram a professora de história que vinha na direção deles.  “Boa tarde! Vocês poderiam me ajudar a trazer algumas caixas de prendas para a pesca?” Eles decidiram ajudar a professora e a seguiram. Ela entrou no prédio e seguiu em direção a um elevador. Todos entraram e aguardaram a porta se fechar (ela era muito lerda).

O destino deles era o sétimo andar, mas por um motivo não conhecido, as portas se abriram no terceiro. Sobrenaturalmente, lá estava um           belo queijo redondo flutuante. No entanto, não era um queijo qualquer. Era o Queijo Sagrado! Astrid começou a pular de alegria e a balançar os braços como um pássaro deficiente, a professora começou a chorar e Ryldo quase desmaiou.

Então, ele deu um passo em direção à “Maravilha das Maravilhas”. Quando estava pronto para encostar nele, a professora disse: “Não, garoto! Você está doido! Você tem que esperar dez segundos para encostar no Queijo Sagrado!” As portas do elevador se fecharam e, após dez segundos, abriram-se de novo no sétimo andar. Lá estava o Queijo, como se estivesse esperando por eles.

Eles saíram do elevador, em direção ao Queijo. “Nossa, agora você pode encostar no Queijo Sagrado, né? Já que se passaram dez segundos…”, disse Astrid para Ryldo. Ele encostou no queijo depois o abraçou, mas se manteve em silêncio.

“O que faremos agora? O Ritual de Ingestão do Queijo?”, comenta a professora.

“Seria interessante… Mas teríamos que procurar os pratos e talheres especiais, além da toalha de mesa com desenho de vacas. Você mais do que ninguém deve saber como isso é importante para que tudo dê certo”, Astrid diz à professora.

Ryldo estava cansado da tagarelice daquelas duas. Pensava em comer o Queijo daquela maneira mesmo em que se encontrava e pronto. Enquanto as duas foram em busca dos utensílios especiais, ele pensou em como poderia ingeri-lo da maneira mais rápida possível. Infelizmente, todas as ideias eram sobre-humanas. Mesmo assim, não custava tentar.

Elas olharam para Ryldo como se imaginassem que ele estivesse pensando em uma maneira de desvirtuar tudo o que havia de sagrado naquele momento e se aproximaram para tomar o Queijo de suas mãos.

O garoto foi mais rápido. Colocou o Queijo perto de sua boca, que se abriu grandemente, pois sua mandíbula se deslocou. Ele pode movê-lo para dentro de sua boca e começou a mastigar. Astrid e a professora ficaram paralisadas, pois aquilo era estranho demais até para elas. Após cinco minutos, Ryldo conseguiu o engolir. Ele se sentiu feliz. Feliz para sempre. Mesmo assim, ninguém mais ficou sabendo do episódio do Queijo Sagrado, pois aquilo fora pertubador demais. Demais!

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