Contemplação

Estava andando no parque como em qualquer outra manhã de domingo, lendo meus novos e-mails pelo celular e checando as notificações das redes sociais. Já fazia uma hora que eu estava andando, quando senti algo puxando meu sobretudo. Virei-me e vi uma garotinha, olhos castanhos como a noite me encarando, com as mãos no cabelo cheio de cachos. Ela fazia eu me lembrar de mim mesma quando criança, mesmos olhos, mesmo cabelo, e mesmas manias. A garota se aproximou de mim e disse:

  – Moça, o que você está fazendo no seu celular?
  Me surpreendi com a pergunta, afinal, que criança para alguém para perguntar isso? Mas mesmo assim respondi:
  – Nada de mais, só checando e-mails e essas coisinhas bobas. Mas por quê?
  – É que você está em um parque cheio de árvores e flores bonitas e com aromas tão bons, em um lugar tão perfeito e não está nem um pouco interessada, só está olhando para o seu celular. Por quê? A beleza daqui não te faz se sentir diferente e querer parar só para observar tudo isso?
  A resposta da garotinha me deixou envergonhada, eu realmente não tinha percebido isso, o lugar era mesmo lindo, estonteante, e mesmo vindo aqui por tanto tempo eu nunca tinha reparado na beleza que residia no parque. As flores iam do branco ao roxo, passando pelo vermelho, pelo amarelo, pelo rosa e até pelo azul; as árvores eram enormes, cheias de curvas e com muitas folhas verdes vibrantes; as fontes espalhadas por ali brilhavam conforme o sol encontrava a água; era realmente perfeito. A garota ainda me olhava, esperando uma resposta que eu não tinha. A verdade é que eu não sabia por que me prendia a um mundo tão desinteressante e tão vazio como o mundo adulto ao invés de aproveitar as fantasias e as maravilhas das coisas simples da vida que as crianças gostavam.
  Então, olhei para a garotinha e disse:
  – Acho que você tem razão, é um lugar muito bonito mesmo, eu não sei como não reparei antes. Acho que as vezes os adultos ficam tão presos ao seu mundo que esquecem que podem achar outros melhores. Foi um erro meu não perceber antes, mas prometo que vou melhorar.
  A garotinha abriu um sorriso de satisfação, como se ficasse feliz em mostrar seu mundo aos que não o percebiam. Ela disse:
  – Então você promete ser mais atenciosa com as coisas belas e simples?
  Olhei para ela sorrindo e fiz que sim. Ela saiu correndo pelo parque até desaparecer do meu campo de visão. Parei de andar e me sentei em um dos bancos, a partir daquele dia resolvi vir ali e só apreciar a visão.
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