Fim de mais um dia

René Fijten

René Fijten

Muitos poderiam achar essa vida de trabalhar algo muito fácil. Afinal, não era só acordar todo dia cedo para se dirigir até um escritório e passar lá o resto do dia? Depois de um mês, você receberia o seu salário e compraria o que precisasse (ou não) para a sua subsistência. Se sobrasse, era só guardar para uma viagem ou qualquer outro investimento futuro. Eis a quase regra da vida.

No entanto, não há como enxergar a vida de maneira tão simplória. Não dá para simplesmente excluir o fato de que cada pessoa que faz parte dessa grande multidão tem uma história, lembranças, coisas que fazem com que sejam quem são. Óbvio que tudo fica desinteressante quando são excluídos fatos como esse.

Só que Ana não ponderava esse lado da história enquanto voltava para casa depois de um enfadonho dia de trabalho.  Ou melhor, mais um. Aquela não estava sendo uma fase muito legal.

O por do sol se mostrava em algum lugar atrás dos altos edifícios, dando a certeza de que algum descanso estaria próximo. Pena que não dava para ver. O barulho do trânsito não ajudava, nem o cheiro do cigarro de algumas pessoas que andavam próximas a ela. Bela paisagem urbana.

Rua após rua atravessada, é fácil de se acostumar. Ana conhecia aquele caminho como a palma da mão. Naquele ponto, todo aquele caos passava até a ser agradável. Bem, é bom sentir que se têm coisas conhecidas por perto. Ou pessoas, embora fosse complicado dizer isso em um lugar onde se vê milhares de rostos, mas raramente, algum conhecido.

Ainda mais porque as pessoas pareciam mais esquisitas a cada dia. Não era bem o estilo dela, todo aquele lance alternativo de ser, pensar, vestir, aparecer, fingir. Preferia evitar contato visual com qualquer um que aparecesse à sua frente mesmo. Olhar para o chão.

Contudo, aquele dia era diferente. Nem o chão merecia sua atenção. Caminhava como se estivesse entorpecida, como se não estivesse naquele mundo. Mexia seus pés, mas sua cabeça não se encontrava em lugar algum.

Essa poderia ter sido uma boa desculpa para o fato de que quase levou um tombo. Aliás, como não tropeçar naquelas calçadas magníficas? O que interessa é que a fatalidade foi evitada, pois havia alguém próximo disposto a ajudar. Sim, ela continuava no mesmo planeta. Ao olhar para o rosto que  a ajudou, não pode evitar uma sensação de familiaridade.

– Ana, é você? Nossa, quanto tempo!

– Felipe! Quanto tempo… Obrigada por me ajudar aqui.

Ana precisou de um segundo e meio para esconder qualquer traço de mau humor que ainda pudesse estar estampado em sua face. Então, mais algumas palavras foram trocadas. Principalmente, sobre como o tempo passa rápido e a saudade de tempos antigos de colégio. Um convite para café, qualquer dia desses, fora solto no ar, para conversar um pouco mais sobre seus passados. Lembranças que formaram cada um deles, para serem indivíduos naquela multidão.

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Um comentário sobre “Fim de mais um dia

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