Playground

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Elas sempre faziam a mesma coisa.

Quando chegava o final da tarde, reuniam-se para brincar, suar e brigar. Eu não conhecia os seus rostos. Aliás, só sabia o que estavam fazendo pelos sons e fragmentos de conversa que podia ouvir do meu apartamento. Pelos xingamentos também. Não tinha certeza se deveria estar feliz por crianças ainda brincarem ao ar livre ou desapontado com a falta de educação da atual geração. Bem, e criatividade.

Depois de alguns meses ouvindo tudo aquilo, pude entender o padrão de comportamento delas. Coisas como a reação a chegada de novos contemporâneos, mudança de brincadeiras, o uso constante de frases de efeito e o descaso com o bem estar do próximo. Poderia até fazer um gráfico, se tivesse qualquer tipo de interesse nessa área do conhecimento.

O que interessa é que percebi que elas podiam ser classificadas em três grupos: as que brincavam, as que suavam e as que brigavam. Claro que poderiam ter características correspondentes a vários, tanto que muitos poderiam dizer que facilmente os três grupos poderiam se ligar. Contudo, sempre um predominava.

Não nego. Eles podem se ligar mesmo. Principalmente, se levarmos em consideração o fato de que o objetivo coletivo era ter um tempo de lazer. Mas, os que brigavam, normalmente o faziam porque não sabiam brincar; e os que brincavam, nem sempre queriam suar.

Além disso, podia-se encontrar semelhanças observando a situação com outros olhos. Apesar de tudo eles eram humanos, e seria muito simplório contemplá-los apenas por um ponto de vista. Quando ocorria um evento, como a queda de alguém acompanhada por choro, todos se reuniam para saber o desfecho da situação. Eles eram curiosos. Infelizmente, não pareciam querer projetar suas curiosidades para assuntos de maior relevância.

Afinal, não acho que algum dia eles se perguntaram se alguém poderia ouvir o que estavam dizendo, mesmo com todo o barulho que faziam todos os dias. Com certeza, não imaginavam que alguém poderia se interessar por seus sons. “Por que alguém se interessaria por um barulho tão igual e irrelevante?”, perguntei a um amigo num dia qualquer. Ele simplesmente me olhou e recomendou que fechasse a janela.

 

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Um comentário sobre “Playground

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