Cabelo cacheado: minha história

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Lembro-me de muitas reflexões feitas por mim quando era criança, acerca do meu cabelo. Na minha turma, era uma das únicas meninas com cabelo cacheado, e isso parecia um pouco estranho. Afinal, as outras podiam pentear o cabelo quando quisessem e fazer penteados que nunca ousaria. Como eu queria passar o tempo penteando meu cabelo! Por causa disso, posso dizer que minha autoestima era bem frágil durante a infância, apesar de não admitir. Não me sentia confortável com o fato de os outros serem capazes de ver fraqueza em mim.

Enquanto crescia, essa questão me perturbava e fazia com que me questionasse quanto ao motivo daquilo tudo. Por que as pessoas “bonitas” sempre tinham cabelo liso? Por que a maioria dos personagens legais da TV tinha o cabelo liso? Por que quando alguém passava por uma transformação na aparência mudava o cabelo do cacheado para o liso? Por que chamavam o cabelo cacheado/crespo de “cabelo ruim”? (Nisso, eu me sentia profundamente ofendida). E até, por que a Mia, do Diário da Princesa teve que ficar com o cabelo liso em vez de simplesmente arrumar o cabelo cacheado dela? Amo o filme, mas essa pergunta realmente martelava a minha mente.

Mesmo questionando tanto o assunto, não conseguia me sentir melhor. Ouvia muitos “seja você mesmo” por todos os lados, mas tudo parecia uma grande contradição. Se eu tinha que ser “eu mesma”, por que parecia existir certa pressão em me parecer com os outros, seguir um ideal?

Quando tinha uns doze anos, muita gente que eu conhecia estava fazendo alisamento e seguindo um comportamento em comum. Foi a época em que mais me senti deslocada e deprimida. Queria ser eu mesma, mas parecia errado. Com isso, o dilema do cabelo se intensificou. Até porque, na época, ainda não sabia como cuidar do meu cabelo, e nem tinha quem me ensinar.

Resisti por dois anos e finalmente me submeti a um processo químico com o objetivo de reduzir o volume do meu cabelo. O resultado era liso em cima, com alguns cachos embaixo. No início, amei. No entanto, cabelo cresce, e não é só porque você alisou que seu cabelo vai deixar de ser cacheado. A raiz crescia e eu tinha que dar um jeito naquilo, ou ficaria com uma aparência muito estranha.

Foi um período em que eu me sentia escravizada. Presa pela aparência. Não podia sair em um dia de chuva sem me preocupar com o cabelo. Era muito estressante e desnecessário. Uma espécie de sofrimento que eu mesma me impunha.

No meio de 2012, era hora de repetir o mesmo processo. Contudo, enquanto me olhava no espelho do salão, percebi que eu não queria mais aquilo  para mim. Não era certo colocar um estereótipo, um modelo, um modo de pensar que me fazia tão mal à frente da minha vida. Passaria a me ver como sou, trabalharia para ser a menina que Deus criou e não o que o mundo inteiro achava certo. Então, prometi a mim mesma que não faria aquilo novamente e tentaria usar o meu cabelo natural. Até porque estava com muita saudade de vê-lo.

A mudança interior foi fundamental para que existisse uma mudança exterior.

Em 2013, passei por transição capilar, o que não foi tão difícil para mim, porque meu cabelo não estava liso e sim, ondulado. Mesmo assim, tinha uma aparência um pouco estranha e não sabia muito bem o que ia sair daquilo. Apesar disso, valeu muito a pena. Aprendi que cabelo cacheado pode ser muito prático, comecei a me sentir livre e mais tranquila.

Aliás, não estamos apenas falando sobre cabelo aqui. A aceitação pessoal que tudo isso envolve é a questão principal. Sair de um lugar escuro para usufruir da luz. Quem eu era não imaginava que algum dia teria tanta confiança em simplesmente ser quem é. Com isso, aprendi a viver o “seja você mesmo”. Se fosse só cabelo, nem valeria a pena.

Tentei resumir ao máximo um pouco do que vivi nos últimos anos. Poderia escrever muitas páginas sobre isso, e provavelmente escreverei.

Só vamos deixar uma coisa bem clara aqui: cabelo cacheado/crespo não é ruim. Não existe cabelo ruim.

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(Um agradecimento especial a Rayza Nicácio, que possui um canal lindo que apareceu na hora certa)

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21 comentários sobre “Cabelo cacheado: minha história

  1. quando eu era pequena com ums 6 ou 7 anos tinha um sonho de ter cabelo liso mais depois percebi que meu cabelo era muito lindo brilhoso e cacheado percebi tambem que em terra de chapinha quem tem cacho e rainha nunca vou tirar meus cachos

  2. Letícia, me identifiquei muito com a sua história. Meu cabelo é naturalmente cacheado e sempre ouvi muitos comentários e ofensas por conta disso. Acabei usando química depois de um tempo mas, diferente de você, não me arrependo. Talvez eu tenha começado a alisar pelos motivos errados, mas acabei me identificando mais com o cabelo assim e hoje gosto muito. O que eu quis dizer com isso é que o importante é a gente se aceitar e se sentir bem consigo mesma, seja com o cabelo cacheado, liso, tingido, colorido ou até mesmo careca :) Você está linda com o cabelo cacheado e, mais importante que isso, está feliz! Um beijo.

    • Com certeza! Devemos fazer aquilo que faz a gente se sentir bem! Apesar de toda essa história de cabelo cacheado, temos que tomar cuidado para não transformar essa filosofia de aceitação numa “ditadura dos cachos” também. Se a pessoa se sente verdadeiramente confortável com o cabelo liso, está certo.
      Beijo.

  3. Sempre que vou em algum salão que alguém fica insistindo para que eu faça uma “inteligente” no meu cabelo, eu nunca mais volto. Passei minha vida inteira lutando contra isso, eu era apaixonada pelo meu cabelo, e durante um período na adolescência, eu tinha vergonha, achava que era too much, tinha “personalidade demais”, hoje eu penso que meu cabelo é como eu sou. E voltei a ter um caso de amor com ele!

  4. Que linda história! Fico muito feliz por esta sua libertação, e tenho certeza que servirá de inspiração pra muuuitas pessoas, inclusive pra mim. Obrigada por compartilhá-la!

  5. Achei maravilhoso seu ponto de vista! Passei por um periodo de deslocamento assim como vc, as vezes, na verdade, ainda me sinto um pouco diferente.
    A aceitação da minha raiz miscigenada ( afro e europeu) foi fundamental pra consolidação da minha auto estima!!
    Gostei de ver minha opinião compartilhada/escrita por outra pessoa! Vi que nao sou a unica a ter sofrido calada hahahahaha

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