O Susto

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Um dos colegas de trabalho de Carlos tinha um hábito muito estranho. Quando menos se esperava, lá estava ele atrás de alguma porta, pronto para assustar a primeira pessoa que passasse.

Todo mundo se perguntava se era alguma coisa de infância ou algum trauma. Mas parecia mesmo um hobbie. O moço, definitivamente, parecia satisfeito com aquilo que fazia, apesar de não perceber a impressão que causava em seus colegas.

– Totalmente anormal – disse uma secretária do escritório, certa vez – Uma vez li numa revista que é assim que os psicopatas começam a demonstrar seu comportamento.

Não se sabe da credibilidade da fonte, mas, de fato, aquele comportamento era um pouco perturbador.

Numa terça feira à tarde, ele se encontrava atrás da porta novamente, quando Carlos estava prestes a passar.

– Bu! – exlamou.

– AH, oi… Você novamente. Tudo bem?

– Oi, Carlos! Não sabia que era você. Tudo ótimo e contigo?

– Ótimo, porém um tanto surpreso, por assim dizer.

– Por quê? Alguma novidade?

– Nada muito relevante ou fora do comum. Coração um pouco acelerado ultimamente, acho que é de família. E todo esse negócio do dólar subindo tão rápido. Acho que este ano não conseguirei fazer aquela viagem nas férias.

– Pois é, quando a vida te assusta você dá um grito.

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Mais um texto sobre o tempo

Não vejo a necessidade de me desgastar em um texto muito longo hoje. O excesso de palavas seria apenas um capricho, a ruminação de uma ideia totalmente gasta. Vejo o trabalho de escrever como perda de tempo neste dia em que, ironicamente, só consigo pensar sobre esse tal passar de horas e anos.

Pode ser que isso seja só mais uma fase. Afinal, nós, pessoas jovens, somos cheias delas. Contudo, posso, também, enxergar esse tal do tempo escorrer pelos vãos dos dedos. Acredito que esse seja um pensamento que abrange um pouco mais que um momento, e às vezes se torna a percepção de uma dura realidade, ou toma a forma de apenas mais um monstro que mora embaixo da sua cama.

Seja por causa da pressa, da impaciência, do cansaço, do tédio, da saudade… Sempre existe um motivo para arranjar uma briga com ele. Desde motivos mais reflexivos, como o fim de uma época, à situações mais triviais, como ao esperar sua comida ser esquentada no microondas.

O relógio se movimenta e a gente se surpreende. É como se ele risse da gente. Fico pensando como seria se nós tivéssemos mais coragem e ríssemos dele também…

(Às vezes parece que eu só escrevo sobre o tempo. Socorro)

Baunilha, chocolate ou misto?

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Foto de Thomas Hawk

“Baunilha, chocolate ou misto?”, perguntou o vendedor à sua frente. Miguel era uma criança que tinha uma paixão inexplicável por sorvete. Sempre que podia, pedia que seu pai comprasse para ele. No entanto, essa era a primeira vez que a pergunta era direcionada ao menino, e a única coisa que conseguiu fazer foi olhar para o homem com um olhar confuso.

“Filho, o moço quer saber que sabor você quer”, explicou o pai. Sim, o garoto havia entendido a pergunta.  O que não fazia sentido era o fato de que ele tinha que escolher o próprio sorvete. Ele nunca tinha precisado escolher nada. Por que, assim de repente, a tarefa fora delegada a ele?

“É… misto”, respondeu incerto. Parecia lógica essa opção, já que gostava tanto de baunilha quanto de chocolate. Então, por que não?

“Tem certeza? O de baunilha é melhor”, revelou o pai.

“Ah… Baunilha, então”, decidiu Miguel.

Naquele dia, ele sentiu muita falta de sorvete de chocolate. Mas o pior de tudo era que o pai o havia feito escolher o sabor errado. Se baunilha era tão melhor assim, por que ele havia ficado descontente? Da próxima vez, seria misto e ninguém o impediria.

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